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Trump hostiliza aliados e ameaça regime iraniano

Presidente americano manteve conversa tensa com chefe do governo australiano, um dos principais aliados dos EUA. E insiste na crítica sistemática a decisões de Obama.

"Como é possível? A Administração Obama aceitou receber milhares de imigrantes ilegais da Austrália. Porquê? Vou analisar este acordo estúpido!". O texto corresponde a uma das mensagens publicadas ontem no Twitter por Donald Trump e reflete mais um foco de tensão envolvendo o presidente americano e, no caso, o chefe do governo de um dos países mais próximo dos Estados Unidos, e seu aliado de longa data, o primeiro-ministro Malcolm Turnbull.
 
Em causa está - como tem estado quase sempre até agora - uma decisão da presidência de Barack Obama. Numa conversa telefónica entre Trump e Turnbull, o dirigente americano mostrou-se "extremamente irritado", segundo o porta-voz da Casa Branca Sean Spicer, com o facto de os EUA irem receber cerca de 1250 refugiados que a Austrália se recusa a aceitar no interior das suas fronteiras.
 
Segundo uma descrição no The Washington Post, a certo ponto do contacto telefónico - sucedido no passado sábado -, Trump terá afirmado que a conversa estava a "ser a pior" das que tivera até aí. Nesse dia, o presidente americano falara antes com os seus homólogos da Rússia e de França e com a chanceler Angela Merkel. Ainda segundo o mesmo diário, o telefonema teria sido abruptamente interrompido por Trump, após 25 minutos de conversa. A sua duração estava estimada para cerca de uma hora.
 
No quadro do acordo, em troca do acolhimento de 1246 refugiados, a Austrália receberia alguns refugiados de países da América Central atualmente em campos na Costa Rica. Em 2011, Obama obteve autorização de Camberra para criar uma base de apoio para unidades Marines em Darwin, Norte da Austrália.
 
Após a divulgação da notícia do The Washington Post, quer a Casa Branca quer o primeiro-ministro australiano apressaram-se a desmentir o caráter tenso e agressivo da conversa. Numa entrevista a uma rádio nacional, Turnbull garantiu que a "aliança está de pedra e cal" e "houve um compromisso inequívoco" de Trump em receber os refugiados. Ideia igualmente repetida, como antes referido, pelo porta-voz da Casa Branca.
 
A Austrália, com o Reino Unido, é um dos aliados mais importantes dos EUA, tendo estado militarmente envolvida ao lado de Washington nos conflitos em que estiveram também tropas americanas, desde a guerra da Coreia, ao Vietname, guerras do Iraque e do Afeganistão. No plano diplomático, em especial quando estão no poder em Camberra executivos conservadores (como o atual) é um sólido parceiro dos EUA. No plano regional, como referiu ao The New York Times o diretor do Instituto Australiano de Políticas Estratégicas, Peter Jennings, os dois países partilham a "mais sofisticado e completo conjunto de informações". Os EUA possuem ainda estações de interceção de comunicações e vigilância radar abrangendo a península coreana, o Mar da China do Sul e o Sudeste Asiático.
 
Em resposta a estes desenvolvimentos, aquele que é um dos inequívocos adversários de Trump entre os republicanos e uma voz autorizada em política externa, o senador John McCain, recorreu, também ele, ao Twitter, para criticar o presidente. McCain escreveu ter telefonado ao embaixador da Austrália nos EUA para lhe garantir que permanece inalterada "a aliança histórica" entre os dois países.
 
Logo no início da presidência, Trump anunciou a intenção de retirar os EUA da Parceria Trans-Pacífico, um acordo de comércio livre de que a Austrália é parte integrante.
 
Mantendo-se fiel ao Twitter, Trump corroborou ontem declarações duras proferidas na véspera pelo conselheiro de Segurança Nacional Michael Flynn. Utilizando os mesmos termos, o presidente escreveu que o "Irão formalmente advertido" e nova crítica à herança de Obama: "deviam estar agradecidos pelo mau acordo que os EUA fez" com Teerão - referência ao acordo sobre o nuclear iraniano de 2015. Numa segunda mensagem: "O Irão estava nas últimas, à beira do colapso" até ao "balão de oxigénio" concedido pelos EUA sob a forma de "150 mil milhões de dólares".
 
Ainda sob outro contacto telefónico, este, de novo, com o presidente do México, Peña Nieto, Trump terá deixado no ar a hipótese de colocar tropas na fronteira com este país, prontos a entrar nele em operações de segurança contra o que classificou como "bad hombres" - os narcotraficantes. O que a Casa Branca desmentiu.

Acordo entre os EUA e a Austrália

O que está em causa no acordo?
 
A Administração de Barack Obama acordara, em novembro de 2016, receber 1246 refugiados atualmente a viverem em campos nas ilhas de Nauru e Manus, que a Austrália recusa a deixar entrar no seu território. Desde 2001, com o então primeiro-ministro John Howard, a Austrália tem adotado uma política altamente restrita no acolhimento de refugiados
 
O que foi decidido entre Obama e Turnbull?
 
A 15 de novembro de 2016 era anunciado que Barack Obama e o primeiro-ministro australiano Malcolm Turnbull tinham concordado "num acordo a concretizar-se uma só vez" para a transferência para os Estados Unidos daqueles 1246 refugiados, dando prioridade a mulheres, crianças e doentes.
 
Por que é que Camberra recusa refugiados?
 
O argumento principal do governo conservador australiano (após uma mudança durante os executivos trabalhistas de 2007 a 2013) é de que está a salvar vidas e a combater o tráfico de pessoas, tornando claro que não hesita em forçar os barcos e que se recusa a receber migrantes ilegais.
 
De onde são naturais os refugiados?
 
A maioria é proveniente do Irão, seguindo-se o Afeganistão, o Sri Lanka, o Paquistão, o Iraque, o Bangladesh e ainda pessoas sem nacionalidade. Segundo os governos de Nauru e da Papua-Nova Guiné, cerca de 80% das pessoas nos campos cumprem os requisitos necessários para serem consideradas refugiados.
 
O que vai suceder em seguida?
 
O porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, garantiu que os EUA iam respeitar o acordo assinado por Obama, ainda que Trump "esteja extremamente irritado" com o conteúdo. Spicer notou que serão os EUA a terem a última palavra sobre quem irá entrar no país.

Tags: mundo presidente americano donald trump EUA barack obama aliados crise internacional austrália

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